top of page
ChatGPT Image 11 de jun. de 2026, 15_34_19.png

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana". - Carl Jung

​

Ouvi essa frase nos tempos de faculdade de psicologia, muito popularizada, eu a interpreto como dando importância ao olhar para a complexidade, a singularidade de cada pessoa, que todas elas têm diversas demandas, há quem diga que todo atendimento em saúde deveria ser um atendimento multidisciplinar (compartilhado entre médicos, psicólogos, psiquiatras, demais colegas).

​

Mas no capitalismo as coisas se apresentam de forma bastante diferente. Aquilo que deveria ser objeto de múltiplos olhares, múltiplas interpretações (como uma alteração na pressão arterial), passa a ser um campo em disputa: Qual a melhor abordagem? Qual é a melhor teoria? Quem é o dono da verdade? Quem está certo? Qual é a resposta "puramente técnica e objetiva" para o meu problema?

​

Essas são questões que surgem a partir de uma captura capitalista da nossa profissão, essas são perguntas que interessam ao funcionamento do capitalismo, a competição predatória, que não visa o crescimento mútuo, a disputa por pacientes (ou já posso chamar de clientes mesmo?), a comparação entre teorias como se uma "anulasse" a outra, como se existisse uma resposta só, uma abordagem só, que pudesse "resolver todos os meus problemas".

​

Quem perde com essa captura da nossa profissão? Todos nós e os nossos pacientes também.

Uma alteração na pressão arterial é, em geral, um sinal (porque na maioria das vezes é observado pelo profissional/pessoa que realiza o exame, sem apresentar nenhuma sensação em quem sofre essa alteração) de que algo não vai bem com a saúde do paciente.

​

Dentro do modelo biomédico, essas alterações podem ser alvo de uma importante investigação e entendidas como expressão de uma alteração orgânica: predisposição genética, alterações vasculares, metabólicas, renais, cardíacas ou hormonais. Evidentemente, essas possibilidades existem e não devem ser ignoradas. O problema começa quando essa leitura passa a ser a única possível.

​

A pressão arterial não existe fora da vida concreta de uma pessoa. Ela se altera em um corpo que trabalha, sofre, dorme mal, se alimenta de determinada forma, vive sob pressão, enfrenta medo, assédio, esgotamento, ansiedade, insegurança financeira, conflitos familiares e rotinas de trabalho exaustivas. O corpo que mede pressão é também o corpo que vive uma história. Reduzir esse corpo a uma variável biológica isolada pode produzir diagnósticos precoces, tratamentos apressados e uma escuta muito limitada sobre o que está acontecendo com aquele paciente.

 

O caso de elevações pontuais da pressão arterial é um bom exemplo. Uma pessoa pode apresentar momentos em que a pressão sobe e outros em que ela se encontra dentro da normalidade. Nesses casos, uma investigação mais cuidadosa costuma exigir medições seriadas, acompanhamento adequado e, muitas vezes, exames como a MAPA, que monitora a pressão arterial ao longo de 24 horas, ou a MRPA, feita em ambiente domiciliar com método padronizado. Sem esse tipo de acompanhamento, há o risco de transformar uma oscilação pressórica em um diagnóstico fechado de hipertensão, como se a variação momentânea já revelasse uma doença crônica estabelecida.

​

Mais problemático ainda é quando se atribui rapidamente essa condição a uma “causa genética” (por vezes, dizer que algo é genético é apenas uma forma muito elegante de confessarmos nossa ignorância, e não fruto de estudos, pesquisas, exames realizados sobre aquele fenômeno) sem que antes tenha se quer indicado a esse paciente que uma possível causa para suas alterações na pressão arterial pode ter origem em questões emocionais.

Essa crítica não significa negar a importância da medicina, dos exames ou dos medicamentos. Existem casos em que a medicação é necessária, protetiva e até urgente.

 

O problema está em transformar a medicação na única resposta possível, especialmente quando a gravidade do quadro ainda não foi bem estabelecida e quando aspectos da vida psíquica, social e laboral do paciente sequer foram investigados.

​

A pressão arterial pode se elevar/reduzir em contextos de ansiedade, estresse frequente, burnout, medo, sobrecarga, conflitos e sofrimento emocional. Esses fatores não precisam ser tratados como “coisas da cabeça”, como se fossem menos reais que uma alteração orgânica. Pelo contrário: são experiências que atravessam o sistema nervoso, o sono, os hormônios, a alimentação, o uso de substâncias, a capacidade de descanso e o funcionamento global do corpo. O emocional não está fora da biologia; ele também se expressa biologicamente.

​

Por isso, causa estranhamento que, em alguns processos de cuidado, a psicoterapia nem sequer seja sugerida. O paciente passa anos medicado, acompanhado apenas por tratamentos do modelo biomédico, sem que alguém pergunte com profundidade sobre sua rotina, seu trabalho, sua história de sofrimento, seus sintomas ansiosos, seus medos, suas perdas, suas pressões e seus modos de vida e seus silêncios, o que ele não está conseguindo expressar, viver. A saúde, nesse modelo, aparece como se fosse apenas uma questão de corrigir parâmetros orgânicos, e não de compreender uma vida em sua complexidade.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas: “qual remédio controla essa pressão?”. A pergunta também deveria ser: “que vida está produzindo esse corpo em estado de alerta?”. Quando essa pergunta não é feita, o tratamento pode até reduzir números, mas deixa intactas as condições sociais e estruturais que continuam produzindo adoecimento nos pacientes.

bottom of page