
Como as redes sociais, por meio da cultura de massa, alimentam-se do que há de mais vital em nós para nos devolver individualidades empobrecidas?
A Folha de S. Paulo convidou Guattari para uma mesa-redonda, pedindo-lhe que propusesse um tema. Ele sugeriu “Cultura de massa e singularidade”. No entanto, o título anunciado foi “Cultura de massa e individualidade”. O termo “singularidade”, segundo dissera, parecia ao jornal demasiadamente sofisticado, inacessível a seu leitor — exatamente, o consumidor de cultura de massa. Esse fato é, no mínimo, uma coincidência reveladora, sobretudo se o pensarmos nos termos das próprias ideias de Guattari. Ele concebe a subjetividade como produção e considera que uma das principais características dessa produção nas sociedades “capitalísticas” seria, precisamente, a tendência a bloquear processos de singularização e instaurar processos de individualização. Os homens, reduzidos à condição de suporte de valor, assistem, atônitos, ao desmanchamento de seus modos de vida. Passam então a se organizar segundo padrões universais, que os serializam e os individualizam. Esvazia-se o caráter processual — para não dizer vital — de suas existências: pouco a pouco, eles vão se insensibilizando. A experiência deixa de funcionar como referência para a criação de modos de organização do cotidiano: interrompem-se os processos de singularização. É, portanto, num só movimento que nascem os indivíduos e morrem os potenciais de singularização. Tudo isso constitui uma imensa fábrica de subjetividade, que funciona como indústria de base de nossas sociedades. É exatamente nessa indústria que a mídia, tal como existe hoje em dia, com sua cultura de massa, teria um papel de destaque.
Que “singularidade” não seja uma palavra tão comum eu até concordo, porém não teria a prepotência de assumir de antemão, como fez a Folha, de dizer que as pessoas não são capazes de entender e, mesmo que não entendam, ainda assim não subestimaria o seu poder de despertar interesse, curiosidade e busca por novos conhecimentos. Afinal, todos os dias saem palavras novas na internet, difíceis, que ninguém sabe o que querem dizer, mas prontamente pesquisam, descobrem e demonstram interesse em saber. Talvez o interesse em não se utilizar ou mencionar certas palavras possa ser outro, aquele que é da ordem de uma produção de ignorância, de apagamento de um saber, em prol da produção desse indivíduo serializado, da cultura de massa, que aqui me faz mais sentido em pensar...
Por individualidade, podemos compreender a serialização empobrecida de indivíduos iguais. Ela se apresenta como resultado de uma diferença pessoal, mas sempre deriva de um modelo. É a cultura de massa presente nas redes sociais: por exemplo, os memes “eu e meu amor”, “meu amigo que faz não sei o quê” são diferenças, heterogeneidades homogêneas. Todo mundo que quer ser diferente faz algo igual, uma drogadição de identidade. As redes se alimentam do fluxo de singularidades para produzir individualidades serializadas.
Aquele 1 milhão de curtidas é de 1 milhão de relacionamentos de diferentes classes, raças, gêneros, territórios, sexualidades e assim por diante. Tudo isso se perde de vista.
“É, portanto, num só momento que nascem indivíduos e morrem os potenciais de singularização.”
Podemos, agora, voltar à Folha. Ao substituir o termo “singularidade” por “individualidade”, o jornal, curiosamente, encenou o próprio tema do debate: cultura de massa e singularização não podem aparecer numa mesma frase; elas são, na realidade, incompatíveis. A imprensa, enquanto produtora de cultura de massa, alimenta-se de fluxos de singularidade para produzir, dia a dia, individualidades serializadas. Democraticamente, ela “amassa” os processos de vida social, em sua riqueza e diferenciação e, com isso, produz, a cada fornada, indivíduos iguais e processos empobrecidos.
Mas não fica só aí a coincidência. Completando sua mise-en-scène, o jornal justificou a troca dos termos argumentando que a palavra “singularidade” seria uma sofisticação inacessível a seu leitor. De fato, singularizar é luxo nos tempos que correm! Ainda mais no mundo das páginas diárias, fabricado por essa máquina cuja função é exatamente inversa: produzir indivíduos deslocáveis ao sabor do mercado e, para isso, precisando interceptar seu acesso aos processos de singularização. Isso sim, sem dúvida, adapta-se perfeitamente aos tais “tempos que correm”...
Felix Guattari conseguiu captar em suas obras movimentos da vida que nos oferecem novas formas de pensar e criar, de enfrentar a cultura de massa e questionar a captura de nosso desejo pelo capitalismo.
Um desses movimentos, processos, é o conceito de singularidade: processo junto ao devir que permite sair dessa cultura de massa, da produção serializada de individualidades.
A singularidade não tem nome nem definição, não é possível identificar. Se fosse identificada, não mais seria singularidade, por isso ela é sempre um processo, um movimento.
Singularizar é inventar, é criar, é processo, é estar diferenciando, não é isolado. Quando o primeiro menino colocou o boné para trás, ele não está singularizando: ele individualiza, cria uma identidade, um estilo. Quando o gesto passa a significar, ele já não é mais singular.
Singularidade não é categorização!
É ser fasado: um ser distribuído em fases, tensões e relações, e não uma substância completamente pronta e fechada.
Furado, como queijo suíço, não é um bloco fixo. Aqueles vários eus: comporto-me de maneira diferente com pessoas diferentes, acoplado a si mesmo...
Fases: devir criança, coexistência dessas fases, devir animal...
“Cada um vai fasando até onde queira, como queira, processual dentro do possível.”
A identidade é importante, a individuação também, o pertencimento a um grupo etc.
Mas nunca deixar isso nos fazer perder de vista a procura por pistas, fazer raspagem, descolonizar o pensamento e nos reinventarmos.
