
Para Deleuze e Guattari, o capitalismo, além das características já mencionadas por Marx, também produz processos de subjetivação: formas de desejar, sentir, perceber e se relacionar.
Pense, por exemplo, na invenção dos fones de ouvido. É uma nova forma de habitar a cidade, de poder sair na rua ouvindo música; sua vida agora pode ter uma trilha sonora.
A produção de subjetividade capitalística é um processo que opera como uma “máquina” que captura a subjetividade para garantir sua própria reprodução, alienando o indivíduo através de lógicas de quantificação, comparação, desempenho e consumo contínuo, por exemplo, na figura do indivíduo competitivo, autossuficiente e indiferente aos problemas coletivos.
O indivíduo, nesse sentido, é um produto, é produzido nas relações de poder e, para os autores, não deve ser compreendido em termos de falha moral ou pessoal. Quando uma pessoa vai a público se declarar contra o direito ao voto das mulheres, ela não está sendo uma pessoa “má”; ela está cumprindo uma agenda política do capitalismo global integrado no seu respectivo território e atendendo a interesses econômicos e políticos de determinados grupos — dos quais eu não faço parte e espero que você, que está lendo, também não.
“Amor pela família” ❌
Amor pela economia. ✅
O capitalismo conecta materialmente milhões de pessoas em redes de produção, consumo e comunicação, mas, ao mesmo tempo, incentiva cada uma delas a imaginar que vive e fracassa sozinha.
Privatizam-se os lucros, socializam-se os adoecimentos mentais e individualizam-se as falhas, erros etc. As metas atingidas são comemoradas coletivamente, mas, se você errar em algum procedimento do seu trabalho, o erro é só seu. Problemas produzidos socialmente passam a ser vividos como fracassos particulares: falta de esforço, inadequação individual, incapacidade de competir ou administrar a própria vida.
Contudo, não se trata de uma simples dissolução do indivíduo em um coletivo ou numa massificação. A proposta de Deleuze e Guattari é pensar uma individualidade que seja impessoal; para esta, eles dão o nome de hecceidade.
Porém, é preciso evitar pensar sobre isso de forma simplista, como se existissem essas individualidades “de um lado” e sujeitos “do outro”. É preciso também destacar a prudência necessária nesse processo: “Não é necessário guardar um mínimo de sujeito para dele extrair materiais, afetos, agenciamentos?”
“Há um modo de individuação muito diferente daquele de uma pessoa, um sujeito, uma coisa ou uma substância. Nós lhe reservamos o nome de hecceidade”.
Você já ouviu falar sobre hecceidades quando era criança, nas histórias que começavam com “Era uma vez...”. Quando dizemos “Que calor!”, “Que vida!”, estamos nos referindo a uma individuação muito particular.
A hecceidade é uma individuação coletiva. Um grupo de pessoas vendo o pôr do sol. A composição de diversas intensidades.
É uma forma de abertura de nossa percepção para este nível da realidade, da qual os indivíduos são produto. É onde todo indivíduo é já a sociedade.
vilégios), na casa de uns amigos, ou da sua família, ou em um restaurante de que você gosta.
