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ChatGPT Image 26 de mai. de 2026, 12_37_05.png

​​​Você está em um dia de descanso, em um momento de lazer com sua família, nenhum pensamento preocupante, nenhum estressor presente ou, pelo menos, nada que você note. É um dia bonito, em um lugar agradável, com pessoas agradáveis, você está colhendo os frutos do seu trabalho (e privilégios), na casa de uns amigos, ou da sua família, ou em um restaurante de que você gosta.

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Você se alimentou mais ou menos como sempre se alimenta, faz exercícios regularmente ou não... Nada mudou na sua rotina nas últimas semanas, você está no funcionamento que considera o seu normal.

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De repente, você sente um desconforto, seguido de palpitações, de uma tremedeira, uma sensação de que nada vai bem, mesmo sem saber o porquê disso. Essas sensações lhe incomodam ao ponto de estragar seus planos do final de semana, de comer uma comida gostosa, de estar festejando com seus amigos, de beber, de sorrir, de socializar, de estar presente, e você começa a passar mal.

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O mal-estar passa depois de mais ou menos 10 ou 15 minutos e você volta ao seu funcionamento normal. Tipo de coisa difícil de identificar em qualquer exame médico. Ao qual, aliás, você resolve procurar, para pedir uma avaliação, uma opinião.

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Não foram identificados sinais corporais de nenhuma patologia no organismo, o seu coração bate regularmente, e a sua pressão sanguínea está dentro do normal, os seus “sinais vitais” (dizem os médicos) estão todos normais. Você recebe a orientação de que, se não tem algo de errado no seu corpo, provavelmente você tem alguma alteração no cérebro. Vai ao psiquiatra (que é outro médico) e recebe essa confirmação: você tem uma alteração nos neurotransmissores do seu cérebro, que passaram a não mais saber diferenciar quando você está em um estado de alerta ou não, e lhe indicam um remédio capaz de regular (ou seria silenciar) esse sintoma, e já está pronto para voltar à “vida normal”.

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Caso encerrado. Corpo silenciado e produtivo novamente.

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Na melhor das hipóteses, aqui, você receberia algumas recomendações gerais de quando não sabemos o que se passa com você, como: beba água, faça refeições leves, faça exercício, terapia...

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Mas e se eu lhe dissesse que nada disso é o que realmente importa? É dito pelos próprios profissionais que esses eventos podem ser recorrentes... Que você pode ter recaídas, que pode acontecer de novo... Se pode acontecer de novo, para o que não estamos olhando?

Eu diria que não fomos ensinados a nos perguntarmos pelo “como”.

Como essa alteração cerebral se deu?

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Essa resposta não aparece em exames de imagens, nem de sangue, e nem de nenhum outro tipo. Perguntar-se pelo como é perguntar-se pelo processo: como uma coisa (como o cérebro) muda? Como se modifica, se transforma?

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Voltamos, então, à história de vida daquela pessoa que foi acometida por tais efeitos, pelas vibrações do mundo (como diria o professor @cicero_fonseca).

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Uma trabalhadora precarizada trabalhava no período da madrugada fazendo plantões, abria e fechava a clínica sozinha, uma mulher jovem, numa capital bastante violenta. Essa clínica ficava na esquina de uma sinaleira, ela nunca tinha como saber se o barulho de carro era parando na sinaleira ou chegando na clínica para um atendimento de emergência...

A insegurança de estar sozinha, de poder ser assaltada, e sabe-se lá mais o quê.

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Seja submetido a esse constante estado de alerta por um dia e provavelmente você já vai se perguntar se aguenta aquilo ou não, se vale a pena ou não... Tem a questão de grana, de ser sozinha, de precisar sobreviver...

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Seja submetido a esse nível de estresse por meses e o seu corpo começará a falar por conta própria. Talvez ainda não tenha se cronificado e seja reversível; aqui, demonstro que o funcionamento do nosso cérebro se dá em relação ao meio, e se “altera” conforme a relação com o meio também.

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O constante estado de alerta surge dessa dinâmica: a pessoa exposta inúmeras vezes à situação de estresse que descrevi acima, noites em claro, dormir de dia não é a mesma coisa... Barulho de carro: parou na sinaleira ou está vindo aqui? Preciso conferir...

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Ao ponto de que, depois de um tempo nessa dinâmica, o seu cérebro já não sabe mais distinguir o que é um momento de descanso, de tentar dormir um pouco durante o plantão vazio, e o que é um momento de estresse, alerta, emergência: preciso atender, algum paciente está em estado grave, etc...

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De um caso que era uma simples alteração cerebral que seria resolvida com uma medicação, passamos ao problema da precarização do trabalho, da pejotização, do problema da solidão e da violência urbana... E daí entendemos as recaídas: pode acontecer de novo porque as estruturas do capitalismo continuam intactas.

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Se existem “recaídas”, é porque precisamos ir além das intervenções individuais e pensar em uma sociedade onde seja possível viver e não só sobreviver. Abrimos pautas para pensarmos em nossos problemas coletivamente, olharmos para o que nos afeta coletivamente e podermos continuar a discutir.

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Saúde mental não é uma questão individual.

Ninguém adoece e ninguém se cura sozinho.

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