
Existe algo de sedutor na psiquiatria norte-americana que é a ideia de que nosso sofrimento emocional e diferença seriam explicados por alterações cerebrais que resultariam em entidades cerebrais como o TDAH, por exemplo. E que existiria também uma pílula, um remedinho, uma resposta rápida e simples para resolver este problema.
1- O TDAH é causado por uma “desregulação dos nossos níveis de dopamina”.
Que nossa oscilação entre hiperprodutividade e paralisia, a procura por gratificação imediata e diversos problemas da vida decorreriam da incapacidade do cérebro com TDAH de regular a dopamina.
Essa hipótese nunca foi comprovada como causa específica do TDAH. Segundo o médico psiquiatra Sami Timimi, o fato de estimulantes aumentarem a concentração não comprova uma doença dopaminérgica, pois essas substâncias também aumentam a concentração de pessoas sem o diagnóstico.
Dizer que o TDAH é causado por uma desregulação dopaminérgica transforma uma hipótese não comprovada em explicação científica aparentemente estabelecida.
Isso não significa negar que existam dificuldades de atenção, impulsividade, organização ou motivação. Significa questionar a transformação dessas dificuldades em sintomas de uma entidade cerebral chamada TDAH.
2- “O TDAH atrai problemas para minha vida.”
Tanto a psiquiatria hegemônica quanto pessoas que experienciam o TDAH dizem que, após receber o diagnóstico, compreenderam que os problemas atraídos pelo TDAH eram produzidos pela incapacidade de seu cérebro de recusar gratificações imediatas.
Para Timimi, o diagnóstico de TDAH é uma descrição resumida de determinados comportamentos, não uma explicação para eles. Assim, dizer que uma pessoa procrastina, distrai-se e procura estímulos “porque tem TDAH” seria circular:
• Ela recebe o diagnóstico porque apresenta esses comportamentos;
• Depois, o diagnóstico é usado para explicar os mesmos comportamentos.
3- Entre céu e inferno cabe muita mentira. “Se você não tratar o seu TDAH.” “3 Passos para você se livrar dessa maldição (TDAH)!” (A psiquiatria/psicologia e a religião às vezes são tão parecidas, né?)
Sami afirma que a narrativa patologizante em torno dos transtornos mentais é ao mesmo tempo sedutora e estigmatizante: primeiro, ela associa o diagnóstico não tratado a destinos sociais assustadores, quer dizer: “Se você não tratar o seu TDAH” o destino que lhe aguarda é a maldição, o limbo, é o realismo capitalista que Mark Fisher tanto criticava, presente no discurso psiquiátrico: de que o capitalismo é a única realidade possível e imaginável.
É a psiquiatria hegemônica usando de hipóteses que nunca deixaram de ser somente hipóteses e correlações, sem comprovação científica, para acabar com a nossa capacidade imaginativa e coletiva de pensar em um outro mundo, outro futuro possível.
Então o que te condena a ser um “fracasso” da capitalismo não é a desigualdade, nem racismo, não existem problemas estruturais, não vivemos em um país com herança viva de 400 anos de escravidão, é um reducionismo a tudo depender somente de você aderir a um tratamento que não leva o seu conta o próprio contexto no qual você está inserido!
Entendem como isso é uma forma de produção de ignorância e até violenta de abordar o tema? Como jogar toda contingência do mundo nas costas de um “tratamento” para algo que se quer sabemos do que estamos falando.
Ao mesmo tempo que esse mesmo diagnóstico, se “tratado”, oferece a redenção: transformar a deficiência em diferencial competitivo (é a saúde mental se tornando a nossa nova religião).
Em sua crítica ao neoliberalismo, Timimi argumenta que a sociedade passa a avaliar as pessoas por desempenho, produtividade e capacidade de competir. O próprio TDAH seria, para ele, um reflexo da intolerância cultural às diferenças e aos modos diversos de crescer, aprender e viver.
É a psiquiatria e a psicologia eternizando o lugar de maldição atribuído à diferença, uma luta que antes de ser médica é filosófica, e que Deleuze compreendeu bem: tirar a diferença do seu status de maldição.
Portanto, é preciso questionar: Por que a pessoa precisa transformar suas diferenças em “superpoder” e alcançar um sucesso extraordinário para que sua maneira de existir seja legítima?
O oposto da patologização não precisa ser a excepcionalidade. Não precisamos ser nem “amaldiçoada” nem “superpoderosa”.
Diria Spinoza: não somos desvios, erros ou imperfeições da Natureza, mas modos finitos que dela seguem necessariamente. Somos partes de um todo, constituídos nas relações com outros corpos.
Por isso, a potência de um corpo só pode ser medida em relação a ele próprio.
4- O neoliberâlês presente no psiquiatrês dos norte americanos.
A solução central continua sendo organizar sua manhã, controlar a dopamina, escolher corretamente, encontrar sua missão e aprender a dominar seu cérebro. As adversidades coletivas são convertidas em disfunções pessoais que devem ser corrigidas por especialistas, tratamentos, produtos e serviços.
A mensagem deixa de ser simplesmente “você não é culpado” e aproxima-se de:
“Seu cérebro é diferente; portanto, você precisa aprender a administrá-lo melhor para vencer.”
Para Timimi, isso ainda seria uma forma de responsabilização individual, apenas revestida de linguagem neuropsicológica.
5- Redes sociais: conscientização não necessariamente é algo bom.
Muito se tem falado sobre TDAH, a popularização do discurso medicalizante e patologizante tem sido vista com bons olhos e inclusive estimulada pela American Psychological Association (APA) e dos profissionais em maioria, com todos os meses coloridos e datas que nos ajudam a lembrar sobre a importância de cuidar da nossa saúde mental.
O TDAH inclusive já ganhou até um dia especial no nosso calendário.
Porém, muito se tem ignorado sobre o que esse conhecimento realmente é capaz de produzir em termos de explicação.
Pois, se for sério que tenhamos a responsabilidade de assumir os limites de nosso saber, os mais de 30 anos de crise da psiquiatria sem encontrar marcadores biológicos específicos para o TDAH.
Levar o sofrimento emocional e a diferença social a sério é considerar a singularidade de cada paciente, o contexto social, cultural, histórico, político no qual a pessoa em atendimento está inserida, como tentei aqui demonstrar.
